São Paulo, 28/08/26 – A Intersolar South America 2026 terminou com um sinal claro sobre os próximos passos do mercado de energia no Brasil: as baterias e os sistemas de armazenamento deixaram de ser uma promessa para se tornar uma das principais apostas da indústria.
Realizada entre os dias 25 e 27 de agosto, no Expo Center Norte, em São Paulo, a Intersolar integrou a plataforma The smarter E South America, que reúne também eventos dedicados ao armazenamento de energia, mobilidade elétrica e gestão de energia.
Ao todo, a plataforma recebeu cerca de 50 mil visitantes e mais de 500 expositores durante os três dias. Congressos, minicursos e workshops reuniram aproximadamente 3 mil participantes.
A dimensão do evento reforçou a importância do Brasil no processo de transformação do setor energético latino-americano.
Baterias ganham protagonismo
Se em edições anteriores os módulos fotovoltaicos e os inversores dominavam boa parte das novidades, em 2026 o armazenamento passou a ocupar um espaço muito maior.
Fabricantes tradicionais de equipamentos solares apresentaram baterias e sistemas BESS — sigla em inglês para sistemas de armazenamento de energia em baterias — destinados a residências, empresas, propriedades rurais e grandes projetos.
Empresas como Trina, Jinko Solar, JA Solar e Risen levaram soluções de armazenamento para a feira. Fabricantes de inversores, entre eles WEG, Fox ESS e Dyness, também ampliaram a oferta de equipamentos híbridos, baterias e sistemas integrados.
O movimento ocorre em um momento de transformação do mercado brasileiro. O crescimento da geração fotovoltaica vem desacelerando, enquanto o armazenamento aparece como uma alternativa para melhorar o aproveitamento da energia produzida e oferecer maior flexibilidade ao sistema elétrico.
Primeiro leilão de baterias muda o cenário
Um dos assuntos mais importantes nos corredores e nos painéis da Intersolar foi o primeiro leilão brasileiro de reserva de capacidade voltado ao armazenamento de energia, previsto para dezembro de 2026.
A expectativa do setor é que o certame represente um marco para a utilização de baterias em escala do sistema elétrico nacional.
De acordo com projeções da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), a demanda potencial relacionada ao leilão pode chegar a 4 GW a 5 GW.
O interesse também estimulou fabricantes estrangeiros a procurar parceiros brasileiros.
Durante o evento, empresas internacionais discutiram alternativas para produzir ou nacionalizar parte dos sistemas de armazenamento no país, especialmente diante das exigências de conteúdo local previstas para uma das modalidades do leilão.
Um exemplo foi o memorando firmado entre Jinko ESS e UCB Power, com o objetivo de avaliar a fabricação nacional de sistemas de armazenamento. A iniciativa pode facilitar o atendimento às exigências de nacionalização e ampliar o acesso a linhas de financiamento brasileiras.
Armazenamento vai além das residências
Embora as baterias residenciais tenham ganhado espaço, a tecnologia apresentada na Intersolar mostra que o mercado está se tornando muito mais amplo.
Os sistemas podem ser utilizados por empresas para administrar horários de maior consumo, reduzir custos com energia e aumentar a segurança do fornecimento.
No setor rural, as baterias podem complementar instalações solares e oferecer maior autonomia para propriedades localizadas em regiões com infraestrutura elétrica limitada.
Em escala maior, os sistemas BESS podem contribuir para equilibrar a oferta e a demanda, reduzir impactos provocados pela variabilidade das fontes renováveis e ajudar a aliviar limitações da rede elétrica.
Segundo levantamento citado durante a cobertura do evento, mais de 500 MWh de sistemas de armazenamento foram comercializados no Brasil somente no primeiro trimestre de 2026, mostrando que a tecnologia já começa a formar um mercado próprio.
Mercado solar passa por período de ajustes
A expansão do armazenamento ocorre paralelamente a um momento mais desafiador para a cadeia tradicional de energia solar.
Após anos de forte crescimento, distribuidores e fornecedores de equipamentos fotovoltaicos enfrentam um cenário de maior competição, estoques elevados e pressão sobre preços.
A desaceleração da instalação de novos sistemas também aparece em contraste com o aumento da oferta de baterias.
Esse cenário explica, em parte, a mudança de estratégia observada entre os grandes fabricantes. Em vez de depender exclusivamente da venda de módulos e inversores para sistemas convencionais, as empresas passaram a apresentar soluções completas que combinam geração solar, armazenamento, gerenciamento de energia e carregamento de veículos elétricos.
Brasil mantém posição estratégica
Apesar dos desafios, o mercado brasileiro continua sendo considerado estratégico pelas empresas internacionais.
Dados apresentados pela ABSOLAR durante a abertura do evento indicaram que a energia solar já alcançou uma posição de destaque na matriz elétrica brasileira. Em 2024, a fonte respondeu por 81% da geração renovável adicionada, enquanto o Brasil ocupava a quarta posição mundial em capacidade instalada anual e a sexta em capacidade acumulada, segundo os números citados pela entidade.
O tamanho do mercado também ajuda a explicar a presença de fabricantes asiáticos, europeus e brasileiros na feira.
Para essas empresas, o país combina grande disponibilidade de radiação solar, mercado consumidor expressivo e necessidade crescente de soluções capazes de integrar diferentes fontes e tecnologias.
Energia solar começa a se integrar com outras tecnologias
A Intersolar 2026 também evidenciou que o futuro do setor não será construído apenas com painéis instalados nos telhados.
A plataforma The smarter E reuniu quatro segmentos: energia solar, armazenamento, mobilidade elétrica e gestão de energia.
Essa integração representa uma mudança importante. A energia produzida durante o dia pode ser armazenada para utilização posterior, enquanto veículos elétricos podem funcionar como parte de uma estrutura energética cada vez mais conectada.
O segmento de mobilidade elétrica, inclusive, ganhou espaço na edição de 2026 e passou a ser visto por empresas do setor solar como uma possibilidade adicional de diversificação dos negócios.
Hidrogênio verde também aparece no radar
Outra frente apresentada dentro da estrutura do evento foi o hidrogênio verde, considerado uma tecnologia estratégica para a descarbonização de setores que possuem maior dificuldade para utilizar diretamente a eletricidade.
A integração entre geração renovável, armazenamento e novas formas de utilização da energia amplia o potencial de negócios para empresas brasileiras e estrangeiras.
Com isso, a Intersolar deixa de funcionar apenas como uma feira de painéis solares e passa a refletir uma transformação mais ampla do sistema energético.
O que a Intersolar 2026 mostrou
A edição deste ano deixou algumas tendências bastante evidentes:
| Tendência | Impacto esperado |
|---|---|
| Baterias e BESS | Maior capacidade de armazenar energia e administrar o consumo |
| Inversores híbridos | Integração entre geração solar e armazenamento |
| Produção nacional | Busca por parceiros brasileiros e atendimento às regras de conteúdo local |
| Mobilidade elétrica | Integração entre energia solar, baterias e veículos |
| Gestão inteligente | Uso de dados e sistemas digitais para controlar o consumo |
| Hidrogênio verde | Nova alternativa para a descarbonização de setores industriais |
Mais do que apresentar equipamentos, a Intersolar South America 2026 mostrou uma mudança de direção no mercado.
A energia solar continua sendo o ponto de partida, mas o próximo estágio envolve armazenar, administrar e utilizar a eletricidade de maneira mais inteligente.
Nesse cenário, as baterias surgem como uma das peças fundamentais para permitir que a geração renovável avance sem depender exclusivamente do momento em que o sol está disponível.
Intersolar volta a São Paulo em 2027
A próxima edição da Intersolar South America já tem data marcada. O evento será realizado de 24 a 26 de agosto de 2027, novamente no Expo Center Norte, em São Paulo.
A expectativa é que armazenamento, inteligência energética, integração com veículos elétricos e novas aplicações da energia solar continuem entre os principais assuntos da próxima edição.









Fotos: Luis Nagassawa/NG1 News
